sábado, 15 de novembro de 2008

Voo Livre

FOTO HELDER AFONSO
Foi em queda, quando perdi o chão,
que aprendi a voar.
Malu Sant'Anna

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Martha Lúcia, Detetive Particular

É incrível como, às vezes, sei das coisas antes que aconteçam. Surge uma idéia, uma palavra, um aroma, uma imagem, sempre numa fração de segundos, mas com intensidade suficiente para ser facilmente lembrada quando o fato realmente acontece e chega ao meu conhecimento.
Desde pequena é assim. Os amigos costumam brincar que tenho “radares” ou “bola de cristal”. Nunca supervalorizei esta capacidade, apenas acho curioso o fato. Observei que se intensifica nos períodos pré-menstruais. A origem eu desconheço, porém, desconfio que esta “habilidade” ou “capacidade premonitória” tenha a ver com um fato ocorrido na minha infância, que só é sabido por pessoas muito próximas, como as de minha família.
Morávamos na Capital e eu costumava passar as férias de verão na casa de meus avós, que ficava no interior, em zona rural.
Eram férias memoráveis, com direito a banhos de sanga e no canal, empinar pipa (não usávamos cerol!) na estrada de chão batido, que vez por outra era cruzada por uma boiada. Fazíamos esculturas do barro das poças, após a chuva; corridas de aro e comíamos muita jabuticaba nas terras do Amarante.
Naquele dia, fui com meu avô atrás do monte de cascas de arroz do engenho, num pequeno córrego, porque ali crescia um gravatá que se usava para fazer xaropes. Era ideal colhe-lo antes do raiar do sol. O dia ainda ressonava, antes do amanhecer.
Meu avô sugeriu que fôssemos um pouco mais longe, entrando mato adentro e posteriormente parando numa imensa clareira à beira do rio, onde costumávamos acampar. Ainda era início de temporada e não havia campistas. Eu ria muito das piadas que meu avô contava. Minhas gargalhadas retumbavam. De repente ouvimos um zunido muito forte, como se mil cigarras resolvessem vibrar suas asas ao mesmo tempo.
Olhei assustada para meu avô que fez uma cara de quem sabia tanto quanto eu do que se tratava.
Paramos para tentar entender o que estava acontecendo e fomos abruptamente atingidos por uma luz muito forte, de uma tonalidade meio azulada. Ficamos paralisados de medo e, inexplicavelmente começamos a flutuar.
Arrisquei olhar para cima, temendo o que poderia ver... Lá estava uma placa metálica de uma composição que eu desconhecia, pairando sobre nossas cabeças.
Enquanto subíamos, pude perceber que a luz que nos conduzia era quase sólida. Era densa e envolvente, extremamente confortável.
Quando parecia que bateríamos nossas cabeças na placa metálica, perdemos os sentidos.
Acordei em um ambiente exageradamente iluminado e vi que estávamos dentro de cápsulas que pareciam ser de acrílico ou algo parecido, envolvidos em uma substância gelatinosa, também relaxante, mas que nos impossibilitava os movimentos.
Naquele ambiente havia centenas de outras cápsulas, algumas ocupadas por homens, mulheres, crianças, notoriamente vindos de etnias variadas e ainda outras cápsulas vazias.
O tempo que realmente ficamos neste local é impossível precisar.
A consciência recobrada no interior deste ambiente, que permitiu memorizar o local, durou pouco tempo. Novamente o zunido das “mil cigarras” e perdi os sentidos outra vez.
Quando acordei, estávamos no monte de cascas. O sol estava a pino. Meu avô continuava desacordado, com um sorriso sereno nos lábios. Toquei-lhe o ombro e ele acordou. Olhou para mim e sorriu.
Perguntei se sabia o que tinha acontecido e meu avô respondeu que deveríamos ter pegado no sono. Perguntei se ele não lembrava do zunido, da luz, da placa, do ambiente, das cápsulas e ele: nada! Não lembrava de nada disso.
Em sua mão, uma touceira do gravatá que viemos buscar.
De volta em casa, contei para minha avó. Disse-me que não me preocupasse, que se eu estava me sentindo bem, deveria mesmo ter sido um sonho. Eu me sentia incrivelmente bem...
Tempos depois, soube que muitas pessoas, em lugares distintos, haviam passado por experiência similar. Porém, nunca houve uma explicação ou uma prova de que isso realmente aconteceu. Apenas uma lembrança, como de um sonho.
O fato é que, depois disso, quando retornei daquelas férias, os “lampejos premonitórios” começaram a acontecer.
Jamais me incomodaram, pelo contrário. Facilitam muito meu trabalho.
Sou Martha Lúcia, Detetive Particular.


A fuga de Amanda

Havia 2 meses, mais ou menos, que eu não tinha nenhum ”lampejo premonitório”. Depois das férias de 1977, quando essas “premonições” começaram, este foi o maior tempo que fiquei sem ver ou sentir algo que depois viria acontecer.
De certa forma, eu estava aliviada. As imagens, sons, cheiros, gostos e fatos que surgiam em minha mente, como uma idéia rápida, ainda que não me incomodassem muito, faziam com que me sentisse incomum. Agora eu estava há cerca de 60 dias me sentindo uma mulher comum, normal.
Eu estava prestando serviços para uma empresa de auditoria. Era ano eleitoral e o carro chefe da maioria das campanhas era a transparência. Os auditores não davam conta do trabalho e, por isso, buscavam apoio nos escritórios de investigação, como o meu.
Eu fazia o levantamento dos gastos, verificando a autenticidade de notas e recibos, número de cabos eleitorais e suas áreas de atuação, enfim, buscava atestar a transparência que era o objetivo maior de todos os candidatos naquele pleito.
Era um trabalho desgastante. Eu queria evitar o contato com os demagogos profissionais, mas era impossível. O ganho financeiro falava mais alto. Pagavam bem e pagavam adiantado.
Havia feito uma contagem pública dos cabos eleitorais de um candidato à Prefeitura em pleno Mercado Público. Uma algazarra generalizada...
Quando cheguei em casa, já eram mais de dez horas da noite. Os meninos estavam em seus quartos, jogando vídeo game, assistindo os clips da MTV. Meu marido estava viajando. Beijei os meninos, perguntei da escola, se já tinham jantado e fui tomar meu banho.
Um banho quente, demorado, relaxante... Tudo o que eu precisava.
Fui para o quarto enrolada no roupão. Arrumei a cama. Tirei o roupão e deitei nua, como costumava fazer. Em poucos minutos adormeci.
Acordei na manhã seguinte e, no primeiro piscar de olhos daquele dia, um rosto surgiu em meu pensamento.
Era o rosto de um homem, aparentando 30 anos. Moreno, cabelos desgrenhados, levemente grisalhos sobre um preto muito forte. A pele era incrivelmente lisa, sem marcas, de uma tonalidade extremamente saudável. Os cílios longos e as sobrancelhas perfeitamente desenhadas contrastavam com os olhos grandes, o nariz largo e a boca carnuda. Por incrível que possa parecer, essas discrepâncias entre alguns detalhes de sua face e os traços fortes o faziam parecer deslumbrante: sexy, interessante, charmoso...
O rosto permaneceu em meus pensamentos por uma fração de segundos, o suficiente para que eu não esquecesse jamais. Quando a imagem desapareceu, um nome surgiu, como uma bolha de sabão, redondo, colorido, flutuante: Amanda!
Fiquei por alguns minutos pensando no homem e no nome.
Este seria o último dia da campanha e eu tinha muito trabalho. Relatórios para finalizar, notas para conferir, reuniões, entrevistas... Seria um dia interminável e começava justamente com uma mensagem subliminar sobre algo ou alguém que eu sequer imaginava o que poderia ser. Mas já estava acostumada. Na hora certa, tudo seria revelado.

Levantei-me preguiçosa. Os meninos já haviam saído para a escola. Fui ao banheiro. Escovei os dentes. Tomei um banho rápido e fui para o quarto me arrumar. Deveria passar na auditora antes seguir com a maratona de visitar os diretórios dos partidos.
Por conta deste trabalho, eu estava com três telefones celulares, um de cada operadora. Carregava os três sempre na bolsa. Um deles começou a tocar e comecei a tatear o interior da bolsa para localizá-lo. Peguei o primeiro. Não era. Na segunda tentativa, o celular piscava a mensagem de “identidade oculta”. Tudo bem... Muitos candidatos usam essa configuração. Atendi, ainda com a voz preguiçosa. Ao ouvir a voz do outro lado, senti um frio na espinha. Uma sensação muito intrigante. Um misto de emoção e medo. Era uma voz masculina. Ele disse:
- Detetive Martha, por favor.
- É ela – disse eu. – Pode falar...
- Eu gostaria de encontrar-me com a senhora – disse-me.
Perguntei do que se tratava e ele respondeu-me que queria contratar meus serviços, mas que preferia se encontrar comigo pessoalmente. Expliquei que naquele dia seria difícil, que eu já tinha muitos compromissos... Disse-me que tinha muita urgência e pediu-me apenas 15 minutos do meu dia. Caso eu não pudesse assumir o caso, que ele iria buscar outros meios.
Eu iria até o Mercado naquela manhã, dar uma última conferida nas equipes que saíam de lá. Marquei com ele às 10h30min, na banca 13. Ele pediu que eu falasse para o atendente quem eu era, porque ele estaria esperando. Não foi preciso. Na hora certa, ainda na porta da Banca, avistei um rosto familiar. Era o homem que eu havia visto “em pensamento” naquela manhã.
Aproximei-me cautelosa. Parei diante dele e me apresentei. Disse-me que se chamava Oscar e que procurava por uma pessoa. Um delegado conhecido dele havia indicado meus serviços, com referências muito positivas. A pessoa que ele procurava era sua noiva, Amanda.
Sentei junto dele e pedi um suco de abacaxi. Ele tomava um café.
Contou-me que era noivo de Amanda havia quatro anos. Que ela era uma jovem encantadora, Designer de Moda, recentemente contratada para trabalhar com a renomada estilista gaúcha Milka. Que o casamento iria se realizar no ano seguinte. Que os planos estavam a pleno. Amanda parecia feliz. Porém, na semana que antecedeu o seu desaparecimento, parecia às vezes aflita, às vezes distante.
Antes que prosseguisse, perguntei por que ele não havia procurado a Polícia e respondeu-me tudo indicava tratar-se de uma fuga. Ela havia levado algumas roupas e objetos pessoais, ainda que tenha deixado no apartamento da Rua da Praia quase que tudo o que possuía inclusive o notebook. Que a Polícia pouco faria por ele e que ainda poderia coloca-lo em uma situação constrangedora, no caso de abandono.
Ele queria saber por que Amanda tinha feito isso, mas antes precisava encontrá-la.
Disse-me que pagava quanto eu pedisse. Que amava a moça e, ainda que tudo estivesse muito confuso, tinha certeza do amor dela também.
Concordei em pegar o caso. Afinal, quando um cliente diz que paga o que eu pedir, passa a ser imediatamente meu cliente preferencial.
Pedi apenas que me desse dois dias para que eu concluísse um outro trabalho e ficamos acertados. Como estávamos no centro, sugeri que fôssemos ao apartamento da moça, para que eu pudesse ambientar melhor o caso.
O apartamento ficava em um prédio antigo, de arquitetura clássica, bastante requintado. Subimos até o oitavo andar. Apartamento 802. Entramos. Tudo estava organizado. Todas as coisas em seus lugares.
Sobre a mesa de jantar, o notebook. Pedi que ligasse. Com sorte, Amanda não teria o hábito que tenho de sempre excluir o histórico de navegação da internet.
Cliquei no ícone de navegação, abriu a página do Google. Coloquei o cursor sobre a caixa de pesquisa e esperei. Um leve toque para baixo e ali estava: COIMBRA.
Pronto, já tínhamos uma pista.
Por uma fresta na persiana da janela da sala do apartamento de Amanda era possível ver a Casa de Cultura Mário Quintana. Lembrei de Ju, colega da Academia de Polícia. Costumávamos tomar chocolate quente nas tardes de inverno, no Café dos Cataventos, um dos espaços da Casa. Ju tinha 23 anos e era a única adulta virgem que eu conhecia. Era uma rebelde às avessas, contestadora nata e, apesar de sua postura e aparência, estilo hard core, mantinha-se intocada intimamente. Tinha um bloqueio em relação ao sexo que eu jamais entendi, mesmo porque, ela fugia do assunto sempre. Limitou-se a confessar-me sua inexperiência numa das tardes que nos encontramos no Café.

Oscar estava parado, ao meu lado, olhar vago na mesmo direção que eu olhava.
Lembrei que ainda tinha muito que fazer naquele dia e marquei uma visita mais minuciosa no apartamento no dia seguinte. Saímos juntos, devagar. Ele ia me contando sobre como conheceu Amanda, que ela era sozinha como ele. Que era uma jovem encantadora e, nos últimos dois meses, parecia estar ainda mais apaixonada do que nunca.

No tempo que fiquei no apartamento de Amanda, a pesquisa no Google era só o que tinha. Todo o restante do conteúdo do PC, pastas, arquivos, arquivos temporários, parecia ter sido apagado.
Pensei que precisava estabilizar minha aura. O estresse da campanha eleitoral poderia me deixar vulnerável e eu senti que precisava estar forte.
Naquela noite, pesquisei sobre Coimbra e constatei que, naqueles dias, ocorria a Semana da Moda, no Convento Santa Clara. A ligação entre Amanda e o evento ficou clara. No mesmo instante, um lampejo e um nome: Roxane.

Liguei para Oscar e disse-lhe que eu teria de ir até Coimbra. Era certo que Amanda esteve ou estava lá. Na manhã seguinte, acordei, liguei o rádio e o The Police me brindava com sua “Roxane”. Encontrei-me com Oscar no apartamento de Amanda. Combinamos sobre a viagem. Eu iria sozinha. Era melhor assim.

O Convento ficava na Freguesia de Santa Clara, margem esquerda do rio Mondego, na parte média superior do Monte da Esperança, em posição sobranceira ao mosteiro novo de São Francisco. Já na entrada, um banner imenso com uma foto de uma modelo: seria Amanda?
Parecia realmente a amada de Oscar, que eu havia visto em fotos, porém mais requintada, maquiada impecavelmente com as cores da estação, cabelos em três tons, divinamente esvoaçantes... Pedi informações a uma recepcionista que disse tratar-se de Manuela, uma modelo famosa em Coimbra, que era mantenedora de obras filantrópicas. Por 50 euros (cerca de R$ 140,00), disse-me que me contaria mais sobre a celebridade. Achei justo e possuía bem mais que isso para despesas eventuais. Oscar nada pouparia para saber o paradeiro de Amanda.
A recepcionista disse tratar-se de uma moça muito rica, herdeira de uma grande fortuna. Seus pais haviam morrido em uma tragédia aérea e ela e a irmã gêmea que morava no Brasil eram as únicas herdeiras. Era uma moça destemida, já que comandava um império de cosméticos praticamente sozinha. A irmã, uma aventureira nata, não se envolvia nos negócios e raramente aparecia nos eventos promovidos ou custeados pelas empresas da família.
Manuela era um ícone de beleza na Europa. Seu nome era grife de perfumes. Tinha uma vida discreta, já que pouco se falava de seus envolvimentos afetivos. Recentemente havia viajado ao Brasil, para estar com a irmã. Ficou uns dois meses por lá. Havia retornado à Coimbra para a semana da Moda do Convento e, segundo ouvira, retornaria ao Brasil e ficaria mais algumas semanas por lá.
No horário informado pela recepcionista, Amanda chegou ao Convento em um belíssimo Jaguar XF prata. Eu aguardava na recepção e a vi entrar pelo hall, queixo levemente empinado, passos firmes. Seguiu até uma porta imensa. Antes de entrar, eu disse em tom audível:
- Amanda!
Ela se voltou para mim e sorriu levemente. Ficou parada esperando que eu me aproximasse e então me disse que não era Amanda, que era Manuela, sua irmã gêmea. Perguntei pela irmã e Manuela ficou em silêncio, esperando que eu justificasse minha procura. Então, disse-lhe tudo. Que era Martha Lúcia, Detetive Particular, contratada por Oscar para descobrir o paradeiro da noiva.
Manuela ficou mais uns segundos em silêncio e propôs que nos encontrássemos no almoço.

Manuela relatou toda a história de vida das duas irmãs, que cresceram no mundo da moda e que perderam os pais ainda tão jovens. Que para não dilapidar o império herdado, tinha uma dura jornada. Que a irmã, Amanda, sempre foi aventureira e que decidiram de comum acordo que Manuela ficaria à frente dos negócios. Amanda havia viajado para o Brasil há alguns anos atrás. Conheceu Oscar. Apaixonou-se e acabou ficando por lá.
Mantinha contato com a irmã, através de e-mails e, raras vezes, visitavam-se.

Há cerca de dois meses, Amanda pediu que Manuela fosse até o Brasil, pois precisava muito da irmã. Amanda sabia que Manuela precisava urgentemente de férias. Desde a morte dos pais não tivera um dia de descanso. Então, o impensado aconteceu. Manuela sabia do noivado, mas não chegou a conhecer Oscar, não antes de se passar pela irmã. Sim, Amanda pediu que Manuela ficasse em seu lugar, fazendo-se passar por ela, durante poucos dias, para que ela – Amanda – resolvesse algumas questões de sua vida pessoal. Manuela poderia aproveitar e relaxar durante esses dias. A idéia parecia louca, mas tentadora. Acabou aceitando. Em seu lugar, em Coimbra, uma imensa equipe de assessores se encarregaria de tocar os negócios.
Combinaram tudo, detalhes importantes, informações necessárias... E, conforme combinado, Manuela assumiu o lugar da irmã. Conheceu Oscar e não foi difícil, nada difícil, apaixonar-se por ele. Ele parecia não perceber diferença. Mostrava-se profundamente apaixonado.
No terceiro dia em que estava “no lugar” da irmã, Manuela recebeu uma carta assinada por Amanda.
Mostrou-me a carta que trazia na bolsa.

“Minha querida irmã...

Sei que o que te peço é mais que um favor, é um grande sacrifício. Mas não consigo encarar os fatos de frente. Nesses dias que me afastei, estive com Roxane, uma modelo gaúcha por quem me apaixonei perdidamente. Ela, da mesma forma, entregou-se a esse sentimento novo, sem limites, sem barreiras, totalmente liberto. Decidimos que vamos viver juntas, fora do Brasil. Não tenho coragem de contar ao Oscar, então, peço-te que revele tudo e que lhe peça perdão em meu nome.

Com amor, Amanda”

Ao terminar de ler, passei a mão direita demoradamente no rosto, como que tentando me refazer. Disse-lhe que era necessário contar a verdade, que eu teria de fazer isso, porque estava sendo paga para isso. Era meu trabalho!
Pediu-me que aguardasse mais dois dias. Ela retornaria ao Brasil e contaria tudo.
Pensei que seria impossível manter Oscar em estado de espera, mas concordei que tentaria.

Retornei ao Brasil e Oscar me esperava no aeroporto Salgado Filho. Aflito, não se continha. Menti que encontrei Amanda, que ela havia pedido para que ele esperasse seu retorno, quando lhe contaria tudo. Para minha surpresa, ele concordou prontamente. Levou-me até em casa. Preencheu o cheque no carro mesmo e se despediu.

Não o vi mais. Algumas semanas mais tarde, recebi um Cartão Postal assinado por Oscar e Manuela. Era de uma paradisíaca ilha caribenha onde foram passar alguns dias na cabana onde viviam Amanda e Roxane.


Malu Sant'Anna

Poça

FOTO MARISA DUARTE
Sou chuva na terra molhada
que se mistura, que se espalha...

Quanto mais água empoçada
mais eu me sinto sorvida,
mais eu me sinto lavada...


Malu Sant'Anna

Fantasia

FOTO PAULO MANUEL LEITÃO
Aqui e agora
entre o sim e o não
o senão e o talvez...


Cortarei um pano estampado
e farei dele uma capa
para vestir-me de aventura
e poder criar
minhas próprias imagens.


Pois que seja, então
um breve movimento
que seja puro
o som do tecido
tocando no chão
e que seja luz
o corpo nu
liberto de pudores
despido de realidade.


Malu Sant'Anna

Menina dos olhos

FOTO MARIA

Havia uma menina naquela rua, que nunca dissera uma única palavra em toda a sua vida. Contudo, seu olhar dizia tanto que, diante dela, preferíamos nos calar contemplativos...

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Cíclica

FOTO MARISA TAVARES

Meus ciclos comportam erupções de sensações intensas nascidas em várias partes de mim. E sem congruência aparente, passo no mundo em formas tantas, em caminhos sinuosos onde experimento do bom do mel e do melhor num instante para, no seguinte, deglutir o fel amargo da traição.
Assim, transmuto constantemente indo de um extremo ao outro, ganhando ou perdendo...
Por onde passo vou deixando minhas marcas, meus sinais pessoais e um pouco de mim.
Posso estar mansa, serena, receptiva aos apelos do querer, da paixão e do amor, sempre que as portas de minh’alma se abrem e minha percepção emerge, plena e absoluta. Mas, logo ali, um passo só adiante, posso ser fera que aniquila impiedosa. Basta um “quê” para isso e eu enfrento o mundo resguardando minha real essência e destilando todo o rancor que dores e perdas me proporcionaram.
Sim, sou cíclica, de uma natureza mutante, de uma capacidade inacreditável de recomeçar...
Carrego ruínas de sonhos melífluos que plantei em lugares errados. Semeei em mentes turvas e em corações vazios... E, ainda assim, penso que haverá um dia, um lugar de fato, onde poderei compartilhar com outros que também vivam seus sentimentos intensamente, em plenitude. Que tenham, assim como tenho, passos ora firmes, decididos; ora errantes e trôpegos. Que se aninhem em braços alheios, sem que para isso sejam enfiados em gaiolas... Porque sou pássaro liberto e dona de mim!
Até então, tenho encontrado em meu caminho figuras instigantes e mesmo estranhas... São composições inúteis, que não ousam sequer desvendar uns poucos mistérios dessa vida.
E, então, nem dão o primeiro passo, ou ficam pelo meio do caminho. Talvez por isso, vezes tantas apesar de triste, eu ainda prefira andar só...
Não mais lamento pelas vezes tantas em que me viraram as costas, esses tolos que pensaram serem importantes eternamente. A importância um dia acabou e em seu lugar deixou apenas o vazio: o inerte estado de não ser mais nada!
Por outro lado, perdidas num passado distante, repousam lembranças de outros raros que um dia, por circunstâncias inesperadas e inexplicáveis acabaram partindo para longe. Mas consigo levaram um pouco do melhor de mim. E os pensamentos compartilhados em momentos de indiscutível verdade, permanecerão preservados para sempre e poderão sempre vir à tona da minha real compreensão.
Jamais esquecerei aqueles que um dia ousaram decifrar os enigmas da essência que emana de uma mulher ainda que por um instante, ainda que em um ciclo apenas.
Para se atrever a ter o mundo nas mãos e depois ter de abrir mão dele é preciso muita coragem...

Sendo assim, e compreendo que tudo tem seu sentido de ser (quando parece não ter, podemos criar), descubro que, por mais que eu olhe ao redor e não veja nada, não veja ninguém, quando olho para dentro, para meu íntimo se metamorfoseando mais uma vez, vejo que a vida está me ensinando outra vez e que quanto mais eu sei mais eu quero saber...
Cíclica sim, e insaciável na arte de viver!


Malu Sant'Anna

Alados

FOTO JOSÉ FERREIRA
Sou uma amante incondicional
da liberdade
da minha, da tua
da de todos nós.

Nasci liberta, tão solta
e poucas vezes me deixei cativar...


Percorri caminhos fantásticos
provei corpos
invadi mentes
permeei almas
em momentos raros, efêmeros
que jamais se repetirão.


Porque eu provei do mel...
Sonhei a dois, a três, a mais
e também provei do sal
em perdas e tristezas
que chegaram a mutilar.


Fui brindada com o amor
e tive de engolir o ódio.


Fui presa e predadora,
vítima e algoz,
dúbia e alada.


Aprendi, ah, quanto aprendi
e compreendo hoje e todo dia
da vida, da grandeza divina
que se faz como uma nova chance
a cada novo dia que amanhece...


Hoje, quando penso se valeu a pena
mesmo depois de ter tido e perdido
descubro que querer para mim é inevitável
já que estou viva
e preciso compartilhar
sentimentos e sensações.


Porque, por mais que eu queira voar
e às vezes prefira estar só
tem outras que preciso estar em bando
ou em par
tanto para ter amparo e direção
quanto para amparar e conduzir.

Malu Sant'Anna

Vitrina

FOTO JOSÉ LOPES

São tantos os olhos que me buscam, alguns fraternos, outros hostis, que aproveitam a transparência reticente da minha retina para esmiuçar meu íntimo avesso.
Então fujo – fecho os olhos - e procuro limpar a mente, colocar tudo em ordem...
Mas, lá estão os espectadores com suas perguntas suspensas no ar que eu não sei responder (não parei para pensar...) E, às vezes, até parece que sabem muito mais de mim do que eu mesma poderia saber.
Já devem ter descoberto de meus medos de minhas loucuras, minhas vontades, minhas angústias, meus mistérios, enfim. Porque as paredes que guardam meu avesso são frágeis e cristalinas como o vidro e permitem que eu fique exposta à apreciação daqueles que, em um único segundo, conseguem mergulhar e trazer à superfície sentimentos meus, contidos, reprimidos. Entretanto, ainda que me sinta exposta, de peito aberto, alma liberta, como é meu jeito de ser, revelo apenas aos mais íntimos que sou na verdade um turbilhão de emoções de uma simplicidade que até complica...

Malu Sant'Anna

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Enxugue o pranto

FOTO MIGUEL PEREIRA
Não chores mais, Maria Menina...
O amor não é o prêmio. O amor é a prova!
Malu Sant'Anna

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Verbo

Meu verbo é rasgado
no infinitivo imperfeito
abre-se feito
um vaso quebrado.

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Poema marginal


Esse poema já nasceu condenado, coitado!
Filho de mãe messalina e pai ignorado,
veio ao mundo imundo, impuro,
impregnado de culpa e pecado!

Trazia em si a fadiga
de um fardo humanamente profano.
Cheirava encrenca, balbúrdia,
vivia em meio à orgia
do submundo urbano.

Abusado, o poema cresceu,
adolescendo ainda mais leviano.
Disseminou verbetes impróprios,
andou por recantos inóspitos,
entregou-se ao apelo mundano.

Já adulto, adúltero,
desregrado, abusado, insano,
ao patíbulo foi condenado
morreu o poema, enforcado
por um algoz puritano.

Malu Sant’Anna

Versinho

FOTO JEFERSON MÜLLER TIMM

Queria te dar
um verso bonito
que ao ser escrito
se abrisse em flor...
Azul, tal qual o infinito
tão leve, bem dito,
um verso de amor.
Malu Sant'Anna

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Espectadora

Quando dentro de mim
o caos impera,
o melhor é ficar
do lado de fora
só olhando...
Malu Sant'Anna

Releitura

FOTO TIAGO RAMOS
A vida
tirou de mim
a graça
para que, enfim,
eu pudesse
passar
minha alma
a limpo.
Malu Sant'Anna

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Bruxa

FOTO JOSÉ CALHEIROS
Filha da Lua
amante do Sol
poções e magias,
caldeirão e vassoura,
manto e punhal...
Sou parte do todo,
sou milenar
fagulha de sonho
arquitetando o destino.

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vento

FOTO JOÃO DIOGO CUNHA

Brisa, bruma, ventania

forte, mansa, morna, fria

que vem só ou temporal...


Varre, leva prá bem longe,

purifica, refrigera,

desse corpo tira o mal.


Entra e sai de todo canto

e, enfim, seca meu pranto.


Faz em mim

teu vendaval!


Malu Sant'Anna

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Marco zero

FOTO SONIA GUERREIRO
Tira a rotina
da retina.
Olha-me hoje
como se fosse
a primeira
e a última vez.
Malu Sant'Anna

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Primaveris

FOTO JOSÉ CARLOS PIRES GONÇALVES
O amor fincou suas raízes
em solo fértil...

Ao seu redor
o desejo aflora à pele
na primavera de nós dois.

Malu Sant'Anna

Intumescências


A minha boca pequena fica imensa
quando quer sugar tuas intumescências!


Malu Sant'Anna

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Facções

FOTO NANÃ SOUSA DIAS
O caos parece
que habita em mim.

Duas facções disputam
o controle paralelo.

Duas líderes sediciosas
impõem suas contra-ordens
num panorama
tipicamente humano.

Não há mocinha
nem bandida,
rainha ou plebéia,
santa ou puta,
boa ou má.

Apenas duas faces
que disputam
a superfície
da criatura.

Malu Sant'Anna

Labirinto

FOTO ANA RITA VAZ CRUZ


Diante do amor, sinto que cresço...
Todas as minhas forças
emergem sublimes
e eu enfrento o mundo
com a alma liberta.
Comungo com o universo
na origem poética
de todas as composições
e constelações
e de tanto amor que sinto
acredito no encontro inevitável
no confronto previsível
das emoções incontidas
com a razão imposta
como em um fabuloso
duelo de titãs.
Sobrevivo
ainda que entorpecida
porque percebo
por todos os sinais
que, por mais que o mundo dê voltas
por mais que as circunstâncias
e as conveniências insistam
em criar distância e ausência
o amor sempre será um labirinto
onde a única saída possível
é também a porta por onde entramos.
Malu Sant'Anna

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Felicidade

Foto Filipe Pombo
Uma coragem desmedida
despertou-me para a vida...

Eu precisei de um só segundo
para ser feliz para sempre

Pois a felicidade, quem diria,
é igual uma semente

que se rega todo dia
no convívio renitente.

Malu Sant'Anna

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pedra maldita

FOTO ROGER MEIRELLES
A única forma possível de se estar a salvo do crack por dentro, é jamais experimentá-lo.
Por fora, desconheço...
“Perdi um filho por causa da pedra. Estou limpa há três meses, desde a perda. O crack destrói a vida da gente e tudo ao redor. Perdemos a auto-estima, o amor próprio, perdemos tudo, tudo mesmo. Fiz meu pai perder seu crédito e roubei minha mãe (R$300,00), sem me importar com o fato de que ela estava morrendo de câncer...”
Esse relato contundente é verídico. “G” é uma mulher jovem, no máximo 25 anos, grávida de três meses, que confessa ainda sentir vontade de consumir a pedra maldita diariamente. Está há três meses sem usar, mas sabe que terá de lutar contra essa “vontade” por toda a sua vida.
A epidemia do crack, ainda que muitas autoridades relutem em aceitar, é disseminada não só nas camadas mais pobres da sociedade. Famílias inteiras padecem. Crianças, jovens, adultos, idosos, ninguém está completamente a salvo. A única maneira de se evitar, em nossas vidas, os estragos dessa droga poderosa, degradante, altamente viciante, é jamais experimenta-la. Ainda assim, não estaremos a salvo do convívio com pessoas absurdamente alteradas por conta dos efeitos nocivos do crack.

O que acontece?
São necessários apenas 10 segundos para que o usuário sinta os efeitos que se iniciam por euforia e excitação, seguidas por respiração e batimentos cardíacos acelerados, depressão, delírio e uma vontade quase sempre incontrolável por se consumir novas doses.
O crack é uma forma não salgada da cocaína, isolada numa solução de água, depois de um tratamento de sal dissolvido em água com bicarbonato de sódio, sendo de cinco a sete vezes mais potente e destruidor que a cocaína. Além dos componentes da pasta, a droga contém muitas impurezas.
Possui um poder avassalador para desestruturar a personalidade, agindo em prazo muito curto e criando enorme dependência psicológica. Assim como a cocaína, não causa dependência física, o corpo não sinaliza a carência da droga.
As primeiras sensações são de euforia, brilho e bem-estar, descritas como o estalo, um relâmpago, o "tuim", na linguagem dos usuários. Na segunda vez, elas já não aparecem. Logo os neurônios são lesados e o coração entra em descompasso (de 180 a 240 batimentos por minuto). Há risco de hemorragia cerebral, fissura, alucinações, delírios, convulsão, infarto agudo e morte.O pulmão se fragmenta. Problemas respiratórios como congestão nasal, tosse insistente e expectoração de mucos negros indicam os danos sofridos. Dores de cabeça, tonturas e desmaios, tremores, magreza, transpiração, palidez e nervosismo atormentam o craqueiro. Outros sinais importantes são euforia, desinibição, agitação psicomotora, taquicardia, dilatação das pupilas, aumento de pressão arterial e transpiração intensa. São comuns queimaduras nos lábios, na língua e no rosto pela proximidade da chama do isqueiro no cachimbo, no qual a pedra é fumada.O crack induz a abortos e nascimentos prematuros. Os bebês sobreviventes apresentam cérebro menor e choram de dor quando tocados ou expostos à luz. Demoram mais para falar, andar e ir ao banheiro sozinhos e têm imensa dificuldade de aprendizado.
O caminho da droga no organismo do cachimbo ao cérebro
1. O crack é queimado e sua fumaça aspirada passa pelos alvéolos pulmonares
2. Via alvéolos o crack cai na circulação e atinge o cérebro
3. No sistema nervoso central, a droga age diretamente sobre os neurônios. O crack bloqueia a recaptura do neurotransmissor dopamina, mantendo a substância química por mais tempo nos espaços sinápticos. Com isso as atividades motoras e sensoriais são superestimuladas. A droga aumenta a pressão arterial e a freqüência cardíaca. Há risco de convulsão, infarto e derrame cerebral.
4.O crack é distribuído pelo organismo por meio da circulação sanguínea
5. No fígado, ele é metabolizado
6. A droga é eliminada pela urina

Ação no sistema nervoso
Em uma pessoa normal, os impulsos nervosos são convertidos em neurotransmissores, como a dopamina e liberados nos espaços sinápticos. Uma vez passada a informação, a substância é recapturada. Nos usuários de crack, esse mecanismo encontra-se alterado. A droga subverte o mecanismo natural de recaptação da substância nas fendas sinápticas. Bloqueado esse processo, ocorre uma concentração anormal de dopamina na fenda, superestimulando os receptores musculares - daí a sensação de euforia e poder provocada pela droga. A alegria, entretanto, dura pouco. Os receptores ajustam-se às necessidades do sistema nervoso. Ao perceber que existem demasiados receptores na sinapse, eles são reduzidos. Com isso as sinapses tornam-se lentas, comprometendo as atividades cerebrais e corporais.
O crack nasceu nos guetos pobres das metrópoles, levando crianças de rua ao vício fácil e a morte rápida. Agora chega à classe média, aumentando seu rastro de destruição. Muitos usuários iniciam o consumo de crack fumando o "pitico", cigarro de maconha misturada com a pedra.

Fonte: Anjos Caídos, Içami Tiba. Editora Gente, 6ª ediçãoFonte: Globo Ciência/1996 Ano 5 nº 58
Malu Sant'Anna

A boca

Adoro experimentar novos sabores...
Estou sempre entre os extremos do sagrado e do profano, permeada por uma sede infinita de auto-conhecimento. Até já testei alguns limites, mas isso sempre é risco: o risco de gostar e querer ir até o fim; o risco de detestar e ficar me culpando por gerações...
Um gosto novo é sempre um grande desafio: pode surpreender ou não...
Da boca sei que saem flechas embebidas em arsênico, certeiras e fatais. Por conta disso, há tempo deixei de experimentar meu poder de destruição através da palavra. É uma curiosidade que não tenho mais. Da mesma forma, com candura e leveza, da boca saem flores silvestres que podem resgatar alguém à beira da morte em vida...
Pela boca entram os sabores mais atrevidos: o doce gelado e cremoso do sorvete e o café quente e amargo, ambos feitos por mim; o alimento diário; a cerveja deliciosamente tomada na lata (bem lavadinha), que desce acariciando as paredes da garganta e o whisky que arranha e liberta, despertando totalmente a libido; a saliva e o sêmem amados que tanto fascínio me causam...
Pela boca sai e entra um pouco de tudo. Tem horas que é bom fechar... Em outras, impossível não abrir...
A boca é uma porta. Do corpo, a minha predileta.

Malu Sant'Anna

Limo


O limo cresce
na umidade do meu pranto
porque eu cismo
chorar sempre
no mesmo canto

Malu Sant'Anna

Quase Obscena

Provoca em mim
o gozo pleno
da minha saliva na tua
do teu corpo no meu.

Evoca no íntimo
de minhas entranhas
a plenitude e o furor
despida de pudores
essa minha alma nua

E eu te cavalgo
galopo em teu colo
sussurro um gemido
que te diz tudo.

Te provoco arrepios
e tu em mim
derramas a vida
num brinde ao amor.

Malu Sant’Anna

Autobiografia

Nasci loirinha,
tão pequena
caçula de três.

Depois mais crescidinha,
fiquei morena...
Com 13, perdi meu pai
quanta dor...

Também com 13 virei mocinha
e, mulher, aos dezesseis.

Com 19, casei errado,
morri um pouco
a cada dia
mas renasci com vinte e seis
quando Francisco
eu dei à Luz.

Com 30, conheci o amor,
com 38, o consagrei.

Estou com 40 e hoje
vejo que é tão pouco
é pouco ainda
tudo o que eu sei...

Malu Sant’Anna

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Andanças

Já andei por aí, em tantos cantos com seus ângulos, côncavos, retos e obtusos... por ruelas e avenidas; na rigidez do sol de verão, próximo ao paralelo 30 ou no gélido cair da geada impiedosa das madrugadas do inverno. Já subi ladeira e desci escada sem pisar nos degraus. Já dormi na relva, amanheci sombria e também já iluminei a vida de alguém, aos pés de uma lápide fria. Sufoquei o pranto, para não causar comoção indevida e gargalhei retumbante, sem pensar no eco da minha alegria implodindo os ouvidos alheios. Chorei e sorri sozinha, em par e até em bando... Tomei goles de euforia, até a embriaguez, amortecendo as dores da carne. Rompi milhares de horizontes, um mais intenso que o outro. Batizei um filho meu e alguns filhos de meus compadres e comadres. Bebi, fumei, larguei, fiquei. Vesti e desnudei. Saí, voltei.
Andei por caminhos transversos e por retas intermináveis. Reclinei o corpo nas curvas e senti um friozinho na barriga nas lombadas inesperadas.
Cansei muitas vezes e parei para descansar. Parei para olhar para o lado e, quando tentei olhar para trás, em um determinado trecho, perdi o equilíbrio, quase caindo. Mas jamais desisti de andar e, nas poucas vezes que reclamei dos pés inchados, da chuva e do frio cortantes; do sol e do calor escaldante, eu estava apenas pedindo colo, eu precisava de abrigo, um olhar mais ameno, um sorriso sereno, um ombro amigo...
Malu

Poeta

Com as palmas
das mãos suadas
de onde verte a alma
em versos
o poeta toca a alma alheia,
comunga e a liberta.
Malu Sant'Anna

Ah, Paixão!

FOTO CARLA SALGUEIRO
Abrasiva, incontida
força que me
tira o tino...

Ah, paixão!
Quantas vezes ainda
em ti eu alucino?

Malu Sant'Anna

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Amor para sempre

A estrada nua da minha vida
agora é tua
todos atalhos que eram meus
também são teus
te prometi e mais uma vez
te dei a lua

que bom que agora
não precisamos dizer adeus

porque a história de amor
da minha vida
tem o teu nome
as tuas formas
a tua cor

porque contigo a minha vida
é colorida
tenha certeza
serás prá sempre
o meu amor

Malu Sant'Anna

A vida no cio



Por um tempo incontável, um querer incontido me fez refém do medo. Eu teimei viver no outono de cada nova estação...

Destilei o fel de minhas entranhas na noite lúgubre dos ébrios e mais feri que fui ferida.
Eu mesma me fiz noite... Fechei os olhos, mergulhei no silêncio, virei às costas, tranquei o choro e também o riso. Só não pude negar para sempre a natureza desse auto-abandono que tinha teu nome, teu cheiro, tuas formas, teu sabor...

Então, desisti de lutar em vão e me entreguei ao acaso.

Foi quando as nuvens da desolação infame dissiparam-se enfim e o sol estendeu um raio sutil, aquecendo-me, clareando...
Veio brilhar, muito logo por inteiro, trazendo luz, vida e calor, permitindo o resgate da minha essência adormecida. E o outono que parecia perene foi passando para que eu pudesse viver a cada novo dia uma nova estação.

Em ti descobri meu porto seguro, ainda que tanto desejo por vezes me traga maravilhosas tormentas.
Sacio minha alma na tua, embriagando-me no lirismo do teu sorriso, mesmo que eu esteja sempre sedenta dos teus beijos e abraços.

Tu és o sol do meu dia e, ainda que a noite venha cobrir os sonhos com seu manto azul-marinho, tu reinas soberano na paz que hoje tenho, pleno e absoluto, prateando a lua e fazendo luzir cada estrela no meu céu

Eu vejo Vida brotando em todos os cantos, fluindo em meus tecidos, transbordando em meus poros.

E eu te quero todos os dias, todas as horas, em todos os momentos, de todas as formas e para sempre!

A vida hoje quando amanhece para nós dois sob o mesmo teto, sobre a mesma cama, é alegria, coragem, sedução... É o elo que se fortalece, que instiga as vontades mais íntimas e dá a certeza de que temos um ao outro, de que somos um no outro melhores do que seríamos em qualquer outro lugar.

É a dádiva que o Divino nos deu como recompensa por termos acreditado no amor e por termos nos permitido amar de verdade, já que a vida está no cio, de corpo, alma, mente e coração.

Que bom que a história de amor da minha vida é também da tua.

O melhor lugar do mundo é ao teu lado... Na tua boca, o melhor sabor... Teu corpo exala meu aroma preferido. Em ti me entorpeço e cresço, porque foi nos teus braços que eu conheci e reencontrei o amor.

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Mar

FOTO ANTONIO CRAVO

Quando enfim

caminhar sobre a areia

e sentir tuas ondas salgadas

acariciarem meus passos cansados,

tudo estará

infinitamente melhor...



No teu sal, o Divino irá me curar!


Malu Sant'Anna

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tua Itapema

FOTO JOTA JUNIOR


Deixa-me ser tua Itapema
linda, aos pés do mar
que eu te consagro
mais uma vez
ao amor infinito.

Vem pelo istmo
do desejo incontido
e te apossa
da minha geografia...

Faz em mim tua morada
teu refúgio, tua estadia.

Percorre
meus caminhos todos
desbravando as penínsulas...

Faz de mim tua estrada
teu remanso, tua poesia.

Eu te recebo inteiro
o gozo, o sonho, o riso
e tu te apossas, enfim
de mim, prá sempre
somente tua:

O teu paraíso!


Malu Sant’Anna

Dread Looks




Atitude

feito tentáculos

do pensar.





Malu Sant'Anna

Teu presente para mim

FOTO SUSANA CAMÕES

Queria saber do teu amor:
Qual seria a dimensão?



Então me trouxeste o sol
na palma da tua mão.


Em concha, na dobra da linha
o sol virou coração
e me disseste sorrindo:


És da minha vida a razão!


Malu Sant'Anna

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Espinhos

FOTO ROSA: CARLOS AIRES
FOTO MÃOS: DAVID MELCHIOR CANARIA

Trago as mãos feridas,

a alma dilacerada,

o peito arfando

um querer mudo...



Para extasiar-me

na magnitude

do teu perfume

tive de enfrentar

os teus espinhos.



Malu Sant'Anna

Poema

FOTO LUIZ FERNANDO MELLO

Cada poema é um filho
um amigo, um amor,
um amante.

É um pedaço exposto,
um desabafo,
um íntimo instante

onde se traduz
em um ínfimo momento
tudo quanto cabe
na imensidão
do pensamento.

Malu Sant'Anna

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Aquarela



Quando fui dormir
sem ao menos te dar boa-noite
pensei que o mundo
não deveria ser cinza,
mas era

(será que desbotou nosso amor?)

Eu lavei a alma num pranto escondido
e voltei mais mulher do que nunca
para descobrir na flor do teu sexo
todas as cores que tinha perdido

Malu Sant’Anna

Perfídia

FOTO ALESSANDRO ALVARENGA TOCAFUNDO
Preciso parar
de fingir
que fujo
de mim.
Malu Sant'Anna