quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A mulher que falava com os pássaros


(Imagem: Margarida Cêpeda)

Havia naquela pequena cidade de pouco mais de seis mil habitantes, uma mulher que falava com os pássaros. Falava e ouvia. Eles lhe visitavam diariamente e contavam em seus cantos de suas viagens pelo mundo, dos lugares maravilhosos que conheciam. Contavam das matas, dos rios, dos montes e também da crueldade humana, da poluição, da caça ilegal, da ganância.
Ela ficava por horas na varanda de sua casa conversando com os únicos amigos que possuía na vida.
Na cidade, era chamada de louca. Apontavam-na com deboche ou com pavor. Era motivo de piadas e, para os menores, era apontada como perigosa.
Certo dia, alguns rapazes caçaram uns dos amiguinhos da mulher e os jogaram em sua varanda, mutilados e mortos.
Ela ficou terrivelmente ferida em sua alma e então, teve a idéia de avisar o maior número possível de pássaros para que não mais voltassem àquela cidade, sequer a sua varanda. E assim foi por dias, ela avisando seus amiguinhos, que avisaram outros até que nenhum pássaro mais ousou cruzar o céu daquela cidadezinha de pessoas tão cruéis.
Algum tempo depois, ela foi encontrada sem vida, sentada na varanda.
Apesar de dizerem que havia morrido pela loucura ou pela solidão, ninguém que a viu morta jamais esqueceu o ar de serenidade de seu rosto e a candura de seus olhos voltados para o céu.


Malu Sant'Anna