quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Poema marginal


Esse poema já nasceu condenado, coitado!
Filho de mãe messalina e pai ignorado,
veio ao mundo imundo, impuro,
impregnado de culpa e pecado!

Trazia em si a fadiga
de um fardo humanamente profano.
Cheirava encrenca, balbúrdia,
vivia em meio à orgia
do submundo urbano.

Abusado, o poema cresceu,
adolescendo ainda mais leviano.
Disseminou verbetes impróprios,
andou por recantos inóspitos,
entregou-se ao apelo mundano.

Já adulto, adúltero,
desregrado, abusado, insano,
ao patíbulo foi condenado
morreu o poema, enforcado
por um algoz puritano.

Malu Sant’Anna

Versinho

FOTO JEFERSON MÜLLER TIMM

Queria te dar
um verso bonito
que ao ser escrito
se abrisse em flor...
Azul, tal qual o infinito
tão leve, bem dito,
um verso de amor.
Malu Sant'Anna

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Espectadora

Quando dentro de mim
o caos impera,
o melhor é ficar
do lado de fora
só olhando...
Malu Sant'Anna

Releitura

FOTO TIAGO RAMOS
A vida
tirou de mim
a graça
para que, enfim,
eu pudesse
passar
minha alma
a limpo.
Malu Sant'Anna

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Bruxa

FOTO JOSÉ CALHEIROS
Filha da Lua
amante do Sol
poções e magias,
caldeirão e vassoura,
manto e punhal...
Sou parte do todo,
sou milenar
fagulha de sonho
arquitetando o destino.

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vento

FOTO JOÃO DIOGO CUNHA

Brisa, bruma, ventania

forte, mansa, morna, fria

que vem só ou temporal...


Varre, leva prá bem longe,

purifica, refrigera,

desse corpo tira o mal.


Entra e sai de todo canto

e, enfim, seca meu pranto.


Faz em mim

teu vendaval!


Malu Sant'Anna

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Marco zero

FOTO SONIA GUERREIRO
Tira a rotina
da retina.
Olha-me hoje
como se fosse
a primeira
e a última vez.
Malu Sant'Anna

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Primaveris

FOTO JOSÉ CARLOS PIRES GONÇALVES
O amor fincou suas raízes
em solo fértil...

Ao seu redor
o desejo aflora à pele
na primavera de nós dois.

Malu Sant'Anna

Intumescências


A minha boca pequena fica imensa
quando quer sugar tuas intumescências!


Malu Sant'Anna

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Facções

FOTO NANÃ SOUSA DIAS
O caos parece
que habita em mim.

Duas facções disputam
o controle paralelo.

Duas líderes sediciosas
impõem suas contra-ordens
num panorama
tipicamente humano.

Não há mocinha
nem bandida,
rainha ou plebéia,
santa ou puta,
boa ou má.

Apenas duas faces
que disputam
a superfície
da criatura.

Malu Sant'Anna

Labirinto

FOTO ANA RITA VAZ CRUZ


Diante do amor, sinto que cresço...
Todas as minhas forças
emergem sublimes
e eu enfrento o mundo
com a alma liberta.
Comungo com o universo
na origem poética
de todas as composições
e constelações
e de tanto amor que sinto
acredito no encontro inevitável
no confronto previsível
das emoções incontidas
com a razão imposta
como em um fabuloso
duelo de titãs.
Sobrevivo
ainda que entorpecida
porque percebo
por todos os sinais
que, por mais que o mundo dê voltas
por mais que as circunstâncias
e as conveniências insistam
em criar distância e ausência
o amor sempre será um labirinto
onde a única saída possível
é também a porta por onde entramos.
Malu Sant'Anna

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Felicidade

Foto Filipe Pombo
Uma coragem desmedida
despertou-me para a vida...

Eu precisei de um só segundo
para ser feliz para sempre

Pois a felicidade, quem diria,
é igual uma semente

que se rega todo dia
no convívio renitente.

Malu Sant'Anna

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pedra maldita

FOTO ROGER MEIRELLES
A única forma possível de se estar a salvo do crack por dentro, é jamais experimentá-lo.
Por fora, desconheço...
“Perdi um filho por causa da pedra. Estou limpa há três meses, desde a perda. O crack destrói a vida da gente e tudo ao redor. Perdemos a auto-estima, o amor próprio, perdemos tudo, tudo mesmo. Fiz meu pai perder seu crédito e roubei minha mãe (R$300,00), sem me importar com o fato de que ela estava morrendo de câncer...”
Esse relato contundente é verídico. “G” é uma mulher jovem, no máximo 25 anos, grávida de três meses, que confessa ainda sentir vontade de consumir a pedra maldita diariamente. Está há três meses sem usar, mas sabe que terá de lutar contra essa “vontade” por toda a sua vida.
A epidemia do crack, ainda que muitas autoridades relutem em aceitar, é disseminada não só nas camadas mais pobres da sociedade. Famílias inteiras padecem. Crianças, jovens, adultos, idosos, ninguém está completamente a salvo. A única maneira de se evitar, em nossas vidas, os estragos dessa droga poderosa, degradante, altamente viciante, é jamais experimenta-la. Ainda assim, não estaremos a salvo do convívio com pessoas absurdamente alteradas por conta dos efeitos nocivos do crack.

O que acontece?
São necessários apenas 10 segundos para que o usuário sinta os efeitos que se iniciam por euforia e excitação, seguidas por respiração e batimentos cardíacos acelerados, depressão, delírio e uma vontade quase sempre incontrolável por se consumir novas doses.
O crack é uma forma não salgada da cocaína, isolada numa solução de água, depois de um tratamento de sal dissolvido em água com bicarbonato de sódio, sendo de cinco a sete vezes mais potente e destruidor que a cocaína. Além dos componentes da pasta, a droga contém muitas impurezas.
Possui um poder avassalador para desestruturar a personalidade, agindo em prazo muito curto e criando enorme dependência psicológica. Assim como a cocaína, não causa dependência física, o corpo não sinaliza a carência da droga.
As primeiras sensações são de euforia, brilho e bem-estar, descritas como o estalo, um relâmpago, o "tuim", na linguagem dos usuários. Na segunda vez, elas já não aparecem. Logo os neurônios são lesados e o coração entra em descompasso (de 180 a 240 batimentos por minuto). Há risco de hemorragia cerebral, fissura, alucinações, delírios, convulsão, infarto agudo e morte.O pulmão se fragmenta. Problemas respiratórios como congestão nasal, tosse insistente e expectoração de mucos negros indicam os danos sofridos. Dores de cabeça, tonturas e desmaios, tremores, magreza, transpiração, palidez e nervosismo atormentam o craqueiro. Outros sinais importantes são euforia, desinibição, agitação psicomotora, taquicardia, dilatação das pupilas, aumento de pressão arterial e transpiração intensa. São comuns queimaduras nos lábios, na língua e no rosto pela proximidade da chama do isqueiro no cachimbo, no qual a pedra é fumada.O crack induz a abortos e nascimentos prematuros. Os bebês sobreviventes apresentam cérebro menor e choram de dor quando tocados ou expostos à luz. Demoram mais para falar, andar e ir ao banheiro sozinhos e têm imensa dificuldade de aprendizado.
O caminho da droga no organismo do cachimbo ao cérebro
1. O crack é queimado e sua fumaça aspirada passa pelos alvéolos pulmonares
2. Via alvéolos o crack cai na circulação e atinge o cérebro
3. No sistema nervoso central, a droga age diretamente sobre os neurônios. O crack bloqueia a recaptura do neurotransmissor dopamina, mantendo a substância química por mais tempo nos espaços sinápticos. Com isso as atividades motoras e sensoriais são superestimuladas. A droga aumenta a pressão arterial e a freqüência cardíaca. Há risco de convulsão, infarto e derrame cerebral.
4.O crack é distribuído pelo organismo por meio da circulação sanguínea
5. No fígado, ele é metabolizado
6. A droga é eliminada pela urina

Ação no sistema nervoso
Em uma pessoa normal, os impulsos nervosos são convertidos em neurotransmissores, como a dopamina e liberados nos espaços sinápticos. Uma vez passada a informação, a substância é recapturada. Nos usuários de crack, esse mecanismo encontra-se alterado. A droga subverte o mecanismo natural de recaptação da substância nas fendas sinápticas. Bloqueado esse processo, ocorre uma concentração anormal de dopamina na fenda, superestimulando os receptores musculares - daí a sensação de euforia e poder provocada pela droga. A alegria, entretanto, dura pouco. Os receptores ajustam-se às necessidades do sistema nervoso. Ao perceber que existem demasiados receptores na sinapse, eles são reduzidos. Com isso as sinapses tornam-se lentas, comprometendo as atividades cerebrais e corporais.
O crack nasceu nos guetos pobres das metrópoles, levando crianças de rua ao vício fácil e a morte rápida. Agora chega à classe média, aumentando seu rastro de destruição. Muitos usuários iniciam o consumo de crack fumando o "pitico", cigarro de maconha misturada com a pedra.

Fonte: Anjos Caídos, Içami Tiba. Editora Gente, 6ª ediçãoFonte: Globo Ciência/1996 Ano 5 nº 58
Malu Sant'Anna

A boca

Adoro experimentar novos sabores...
Estou sempre entre os extremos do sagrado e do profano, permeada por uma sede infinita de auto-conhecimento. Até já testei alguns limites, mas isso sempre é risco: o risco de gostar e querer ir até o fim; o risco de detestar e ficar me culpando por gerações...
Um gosto novo é sempre um grande desafio: pode surpreender ou não...
Da boca sei que saem flechas embebidas em arsênico, certeiras e fatais. Por conta disso, há tempo deixei de experimentar meu poder de destruição através da palavra. É uma curiosidade que não tenho mais. Da mesma forma, com candura e leveza, da boca saem flores silvestres que podem resgatar alguém à beira da morte em vida...
Pela boca entram os sabores mais atrevidos: o doce gelado e cremoso do sorvete e o café quente e amargo, ambos feitos por mim; o alimento diário; a cerveja deliciosamente tomada na lata (bem lavadinha), que desce acariciando as paredes da garganta e o whisky que arranha e liberta, despertando totalmente a libido; a saliva e o sêmem amados que tanto fascínio me causam...
Pela boca sai e entra um pouco de tudo. Tem horas que é bom fechar... Em outras, impossível não abrir...
A boca é uma porta. Do corpo, a minha predileta.

Malu Sant'Anna

Limo


O limo cresce
na umidade do meu pranto
porque eu cismo
chorar sempre
no mesmo canto

Malu Sant'Anna

Quase Obscena

Provoca em mim
o gozo pleno
da minha saliva na tua
do teu corpo no meu.

Evoca no íntimo
de minhas entranhas
a plenitude e o furor
despida de pudores
essa minha alma nua

E eu te cavalgo
galopo em teu colo
sussurro um gemido
que te diz tudo.

Te provoco arrepios
e tu em mim
derramas a vida
num brinde ao amor.

Malu Sant’Anna

Autobiografia

Nasci loirinha,
tão pequena
caçula de três.

Depois mais crescidinha,
fiquei morena...
Com 13, perdi meu pai
quanta dor...

Também com 13 virei mocinha
e, mulher, aos dezesseis.

Com 19, casei errado,
morri um pouco
a cada dia
mas renasci com vinte e seis
quando Francisco
eu dei à Luz.

Com 30, conheci o amor,
com 38, o consagrei.

Estou com 40 e hoje
vejo que é tão pouco
é pouco ainda
tudo o que eu sei...

Malu Sant’Anna

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Andanças

Já andei por aí, em tantos cantos com seus ângulos, côncavos, retos e obtusos... por ruelas e avenidas; na rigidez do sol de verão, próximo ao paralelo 30 ou no gélido cair da geada impiedosa das madrugadas do inverno. Já subi ladeira e desci escada sem pisar nos degraus. Já dormi na relva, amanheci sombria e também já iluminei a vida de alguém, aos pés de uma lápide fria. Sufoquei o pranto, para não causar comoção indevida e gargalhei retumbante, sem pensar no eco da minha alegria implodindo os ouvidos alheios. Chorei e sorri sozinha, em par e até em bando... Tomei goles de euforia, até a embriaguez, amortecendo as dores da carne. Rompi milhares de horizontes, um mais intenso que o outro. Batizei um filho meu e alguns filhos de meus compadres e comadres. Bebi, fumei, larguei, fiquei. Vesti e desnudei. Saí, voltei.
Andei por caminhos transversos e por retas intermináveis. Reclinei o corpo nas curvas e senti um friozinho na barriga nas lombadas inesperadas.
Cansei muitas vezes e parei para descansar. Parei para olhar para o lado e, quando tentei olhar para trás, em um determinado trecho, perdi o equilíbrio, quase caindo. Mas jamais desisti de andar e, nas poucas vezes que reclamei dos pés inchados, da chuva e do frio cortantes; do sol e do calor escaldante, eu estava apenas pedindo colo, eu precisava de abrigo, um olhar mais ameno, um sorriso sereno, um ombro amigo...
Malu

Poeta

Com as palmas
das mãos suadas
de onde verte a alma
em versos
o poeta toca a alma alheia,
comunga e a liberta.
Malu Sant'Anna

Ah, Paixão!

FOTO CARLA SALGUEIRO
Abrasiva, incontida
força que me
tira o tino...

Ah, paixão!
Quantas vezes ainda
em ti eu alucino?

Malu Sant'Anna

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Amor para sempre

A estrada nua da minha vida
agora é tua
todos atalhos que eram meus
também são teus
te prometi e mais uma vez
te dei a lua

que bom que agora
não precisamos dizer adeus

porque a história de amor
da minha vida
tem o teu nome
as tuas formas
a tua cor

porque contigo a minha vida
é colorida
tenha certeza
serás prá sempre
o meu amor

Malu Sant'Anna

A vida no cio



Por um tempo incontável, um querer incontido me fez refém do medo. Eu teimei viver no outono de cada nova estação...

Destilei o fel de minhas entranhas na noite lúgubre dos ébrios e mais feri que fui ferida.
Eu mesma me fiz noite... Fechei os olhos, mergulhei no silêncio, virei às costas, tranquei o choro e também o riso. Só não pude negar para sempre a natureza desse auto-abandono que tinha teu nome, teu cheiro, tuas formas, teu sabor...

Então, desisti de lutar em vão e me entreguei ao acaso.

Foi quando as nuvens da desolação infame dissiparam-se enfim e o sol estendeu um raio sutil, aquecendo-me, clareando...
Veio brilhar, muito logo por inteiro, trazendo luz, vida e calor, permitindo o resgate da minha essência adormecida. E o outono que parecia perene foi passando para que eu pudesse viver a cada novo dia uma nova estação.

Em ti descobri meu porto seguro, ainda que tanto desejo por vezes me traga maravilhosas tormentas.
Sacio minha alma na tua, embriagando-me no lirismo do teu sorriso, mesmo que eu esteja sempre sedenta dos teus beijos e abraços.

Tu és o sol do meu dia e, ainda que a noite venha cobrir os sonhos com seu manto azul-marinho, tu reinas soberano na paz que hoje tenho, pleno e absoluto, prateando a lua e fazendo luzir cada estrela no meu céu

Eu vejo Vida brotando em todos os cantos, fluindo em meus tecidos, transbordando em meus poros.

E eu te quero todos os dias, todas as horas, em todos os momentos, de todas as formas e para sempre!

A vida hoje quando amanhece para nós dois sob o mesmo teto, sobre a mesma cama, é alegria, coragem, sedução... É o elo que se fortalece, que instiga as vontades mais íntimas e dá a certeza de que temos um ao outro, de que somos um no outro melhores do que seríamos em qualquer outro lugar.

É a dádiva que o Divino nos deu como recompensa por termos acreditado no amor e por termos nos permitido amar de verdade, já que a vida está no cio, de corpo, alma, mente e coração.

Que bom que a história de amor da minha vida é também da tua.

O melhor lugar do mundo é ao teu lado... Na tua boca, o melhor sabor... Teu corpo exala meu aroma preferido. Em ti me entorpeço e cresço, porque foi nos teus braços que eu conheci e reencontrei o amor.

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Mar

FOTO ANTONIO CRAVO

Quando enfim

caminhar sobre a areia

e sentir tuas ondas salgadas

acariciarem meus passos cansados,

tudo estará

infinitamente melhor...



No teu sal, o Divino irá me curar!


Malu Sant'Anna

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tua Itapema

FOTO JOTA JUNIOR


Deixa-me ser tua Itapema
linda, aos pés do mar
que eu te consagro
mais uma vez
ao amor infinito.

Vem pelo istmo
do desejo incontido
e te apossa
da minha geografia...

Faz em mim tua morada
teu refúgio, tua estadia.

Percorre
meus caminhos todos
desbravando as penínsulas...

Faz de mim tua estrada
teu remanso, tua poesia.

Eu te recebo inteiro
o gozo, o sonho, o riso
e tu te apossas, enfim
de mim, prá sempre
somente tua:

O teu paraíso!


Malu Sant’Anna

Dread Looks




Atitude

feito tentáculos

do pensar.





Malu Sant'Anna

Teu presente para mim

FOTO SUSANA CAMÕES

Queria saber do teu amor:
Qual seria a dimensão?



Então me trouxeste o sol
na palma da tua mão.


Em concha, na dobra da linha
o sol virou coração
e me disseste sorrindo:


És da minha vida a razão!


Malu Sant'Anna

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Espinhos

FOTO ROSA: CARLOS AIRES
FOTO MÃOS: DAVID MELCHIOR CANARIA

Trago as mãos feridas,

a alma dilacerada,

o peito arfando

um querer mudo...



Para extasiar-me

na magnitude

do teu perfume

tive de enfrentar

os teus espinhos.



Malu Sant'Anna

Poema

FOTO LUIZ FERNANDO MELLO

Cada poema é um filho
um amigo, um amor,
um amante.

É um pedaço exposto,
um desabafo,
um íntimo instante

onde se traduz
em um ínfimo momento
tudo quanto cabe
na imensidão
do pensamento.

Malu Sant'Anna

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Aquarela



Quando fui dormir
sem ao menos te dar boa-noite
pensei que o mundo
não deveria ser cinza,
mas era

(será que desbotou nosso amor?)

Eu lavei a alma num pranto escondido
e voltei mais mulher do que nunca
para descobrir na flor do teu sexo
todas as cores que tinha perdido

Malu Sant’Anna

Perfídia

FOTO ALESSANDRO ALVARENGA TOCAFUNDO
Preciso parar
de fingir
que fujo
de mim.
Malu Sant'Anna

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Banquete

FOTO PEDRO NS COSTA

Essa fome

em mim imensa

que se agiganta

e se dilata,

ingrata...

É de ti

que tenho,

é só tu que matas!

Malu Sant'Anna



Sonhos rasgados

FOTO DE CARLOS DE SOUSA SANTOS
Tenho uma
arca imensa,
carcomida pelo tempo
que fica a um canto
do quarto de dormir.

Nela, empoeirados
sonhos amargam o abandono.


Alguns ainda
irradiam brilho sutil
outros, sucumbiram
diante da insistência
brutal da realidade.


Rasgaram-se, frágeis
pela existência
de um tempo
impróprio demais
para se sonhar.

Malu Sant'Anna



A cura

FOTO MIGUEL LOPES

Agora vem
voar comigo
rumo ao
paraíso
de nós dois...

Eu sou
a tua cura!


Malu Sant'Anna

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Fim de Tarde (Para Amorinha)


Intensa, plena

Metamorfoseando-se

Para se completar

Perdendo-se

Para se encontrar



Nenhum caminho é definitivo

Não, não é... não ainda

Bem sabes

Porque todos os rumos

São possíveis quando se quer



E quando buscares teu norte

Não esqueça

Que tu tens a direção

Que tu fazes as esquinas

Os atalhos, as saídas



Deixa sempre aberta

A porta principal

Por onde entra a alegria

E por onde a sensibilidade

Insistirá em sair



Permita-se, com poesia

Aventure-se, com ousadia

Porque o mundo te pertence

E cabe na palma da tua mão

O mundo cabe num beijo

Cabe em uma palavra,

Em um olhar

E é infinitamente menor

Do que teu sorriso

Num fim de tarde.



(Malu Sant’Anna)____________________________________________________________________

Onde há beleza no caráter, a alma resplandesce!



(Malu Sant'Anna)

sábado, 24 de maio de 2008

Ainda que eu tente...



Sigo em erros primários

falando sem pensar

deixando-me levar

pelo calor da hora

depois do dito

a alma se dilacera

e já não é mais possível harmonizar


Ainda que eu tente

e sinta o quanto preciso

melhorar minhas convivências

eu insisto em ser perversa

mesmo que numa fração de segundos...



Malu Sant'Anna

quarta-feira, 19 de março de 2008

Eu, Borboleta


FOTO BY TATY CIDREIRA
Não posso acordar num novo dia
E simplesmente ser outra pessoa
Ter outra vida
Outros planos e sonhos
Tampouco posso apagar
Os capítulos que já escrevi
Impedir que as palavras ditas
Que os gestos praticados
Poupem o estrago que já causaram

Eu só posso aprender com os erros
Acordar agradecida pela vida
Pela família, pela saúde, pelo trabalho
Acreditar nas minhas vontades
E cuidar com zelo dos sonhos
Dos meus e dos que estão ligados a mim

Eu devo pensar mais do que falar
Sempre! Sempre pensar o que falo
Ao contrário de falar o que penso
E agir com o mundo
Como se estivesse diante de mim mesma
Porque a minha felicidade
Está onde o mundo é feliz

Cada dia é uma dádiva
Cada amizade um tesouro
Cada amor único em sua grandeza
Próprio por sua intensidade

Diante de tanta imensidão
De tudo aquilo que se descortina
Que desafia, que instiga
Um fragmento no tempo é o bastante
Para se eternizar uma vida

E ainda que muitas vezes eu amanheça lagarta
E me tranque em meu casulo cinzento
Em tantas outras manhãs
Eu, Borboleta, prefiro beber das flores
Colorindo meu paladar
Brincando com as cores, com os aromas
E, sobretudo, podendo voar...

Malu Sant’Anna

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Lua dos Amantes


Quando o dia amanhece
e a lua permanece suspensa no céu
envolta em uma transparência reticente
é sinal de que a noite foi pequena demais
para o querer e a entrega
dos corpos ardentes
que se emaranham, fundem-se
e se completam
matando a sede do desejo
um no outro
até a saciedade.

Malu Sant'Anna


Meu presente pra ti

FOTO MARISA TAVARES

Pedi à lua em segredo
que brilhasse inteira nessa noite
e te encontrasse em qualquer lugar.

Ela surgiu imensa, branca
de modo que fosse impossível
ainda brilhar mais...

Muitas noites de ausência
não foram o bastante
para apagar tua presença de minha alma
sequer turvaram a lembrança
de tanto querer mútuo
tanta entrega e plenitude
dos momentos que foram mágicos
quando nos descobrimos por inteiro
completamente um no outro
cúmplices e libertos ...

Hoje, quando olhares a lua
em sua grandeza idílica
sentirás minha presença
assim como sinto a tua.


Lembrarás o gosto do beijo,
sorverás o ar mansamente,
como se bebesse de mim,
assim como naquela noite
na última vez que pedi
e a lua também brilhou assim:


Naquela noite, como hoje
a lua é meu presente pra ti.


Malu Sant'Anna

Lavando a alma

FOTO JOSÉ ROBERTO VAISENKOVAS
Tem dias que parece que a gente
está pela metade...
A essência vital se esvai
sem que percebamos
e uma palavra mais dura,
um olhar mais severo é o que basta
para que o sal do
corpo também debulhe
e inunde o rosto.



Às vezes chorar é bom
porque significa que estamos
lavando nossa alma
e mesmo que tenhamos
os melhores sentimentos,
que cultivemos bons
relacionamentos,
que tentemos pensar
sempre o bem,
a alma acaba ficando
meio sombria
diante de tanta discórdia
diante de tanta miséria
diante de tanta falsidade
diante de tantas mazelas ...


Hoje eu acordei
com vontade de chorar...

Malu Sant'Anna