segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Crente


(Foto Ben Goossens)


a fé me prostrou
diante de uma sucessão
de pequenos fracassos
entre tantos delírios e planos

o tempo tratou
de aniquilar a saliva

(numa boca tão árida
que beijos iriam nascer?)

contra a lógica da perda
insana a crença afronta
nenhum instinto 
parido faminto da carne, do corpo
foi sentido em vão

eu cri

embora nem mesmo soubesse
para sempre te quis muito bem

aquele amor aos pedaços
rescaldos de tantas vontades alheias ou tuas
não foi uma ilusão infundada

é o amor 
para sempre

e disso eu já sabia
embora nem mesmo soubesse

sabia,
não sei como,
sabia...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Reggae



salgado é o caminho
doce é a sensação

o Cristo ungido
ostenta atitude
espalhando
seus dreadlocks
pelo ar

a paz já não é branca

a paz é negra,
rubra, amarela,
verde

multicolor

passa assim
de mão em mão
boca-a-boca
num beijo
comungado

cosmopolita


Malu Sant'Anna

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pelos olhos de Larissa

pelos olhos de Larissa
iça maldita sina
essa de dedilhar os vãos
por onde transcorrem amores

serão vorazes todos
alguns impróprios, talvez inglórios

a dizer nas horas mais concretas
que a maior distância ainda é perto

dentro

no meio do rasgo
na carne
mulher



Malu Sant'Anna

segunda-feira, 25 de abril de 2011

café da manhã

hoje acordei com gosto de domingo


daqueles grandes e doces


que se desprendem do caroço


quando são mordidos




fechei os olhos para ver



duas fatias de papaia


sorriam caudalosas


ao alcande de minhas maçãs




e o dia alaranjado


verteu suores na pequena taça




por aqui tudo é luta ainda


embora sumo seja sempre


muito mais




Malu Sant'Anna

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Completação





uma desenha mundos
a outra os recorta

com um pé
embalo o sonho
enquanto o outro
procura
porta

vivo o intenso
daquilo
que mais preciso

tudo quanto cabe

na imensidão
do teu sorriso

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nova


(Foto Daniel Coelho)


Janelas viciadas
essas pelas quais
as paisagens passam
sempre iguais

o caminho é longo
quando já se perdeu
a graça contida
nas maiores pequenezas

e a vida é sempre a mesma

meus pés, entretanto,
dizem-me a mais
daquilo que os olhos gritam

quando chutam o balde
e enveredam contra-mão

outra, adiante
expectadora e cria

vendo dentro
renitente

brotar a mutação

Malu Sant'Anna

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Batismal


(Foto Ben Goossens)

Um sussurro numa avenida vaga
passsos lentos, contrasensos
tudo agora é pouco
e muito me parece nada

sonho estrelado
em mar aberto

de estar mais perto
do alívio salgado

madrugar o vento
compor o ato inusitado
de conceber o dia

sem liturgias
simplesmente nua

meu avesso
marulhado


Malu Sant'Anna

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Pupa


(Foto Graça Loureiro)

Tudo é vontade
que me move
mundo à fora

armazenados folguedos
contrastam
com as emboloradas
falências próprias

comungo caos
em coquetel
de lucidez

já que tenho andado
sempre tão dentro

casulo

descabida

minhas asas
se avizinham...


Malu Sant'Anna

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ainda que o dia amanheça...

(Foto Ben Goossens)

Ando pelas tabelas, de pé embaixo, lomba acima
renegando o legado imposto por desistência
de uma causa supostamente superior

e onde estive, enquanto me moldavam
mãos contrárias à sublimação do ser?

Reclusa, por certo, em algum atalho
petrechado nos entraves dos descaminhos

encravada numa dessas rupturas tão típicas
do desapego etático, profuso
no seu estado mais etílico

agora, canta prá subir! Entidade

preciso misturar a planta dos meus pés
aos arrebóis do novo dia

já que a madrugada desandou
num sufoco morno, meio rouco

cuspido e escarrado
qual pedaço de mim


Malu Sant'Anna

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Estradeiro



vem com calma
atento aos riscos
do mundo cão

eu espero

sonhando ser
estrada

Malu Sant'Anna

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Cadeira velha

(Imagem Google search)


parte da mobília
peça antiga
valor sentimental

não se oferecia
às visitas

não resistiria aos quadris
das gordas tias
e aos pulos dos pequenos
irrequietos filhos
sobrinhos e netos

pensaram mandá-la
junto ao entulho
recolhido em mais
uma reforma

faltou-lhes coragem...

coberta de pó,
casinha de cupins
ainda guardava
a nobreza de ser
testemunha silenciosa

nada pedia
além do canto
sombrio, esquecido
ao lado da porta
do quartinho dos fundos

de onde percebia
tanta vida a passar

Malu Sant'Anna

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Incolores traços meus

(Foto Google search)


o céu feito tela
o mar feito chão

traço sem tinta

no vazio etéreo
navega à deriva

sonhando ser ilha

meu coração

Malu Sant'Anna

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

quereres teus

(FOTO ALBERTO PEREIRA DE MIRANDA)


jangada
se queres chegar
na margem oposta

e asas,
para quando
tu queres
voar

copa frondosa
à sombra da qual
alivias os teus
descaminhos

e rosa
para perfurmar
e colorir teus
contundentes
espinhos

água salgada
que lava a alma
e a leva

espada
que quebra
grilhões e liberta

estrada
a porta aberta
a boca na taça
de vinho

sou vento
que sopra sentidos
te afaga os cabelos

à espera de ti

teu ninho.

Malu Sant'Anna

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Em flor



Semeei ventos e tempestades
nas trincheiras quotidianas

belicosa essência ancestral
nos campos da sobrevivência

até que fui rendida
na origem uterina
que em mim, corpo lúteo
falou mais e melhor

pintou meu avesso
rubro vibrante
com as cores petaladas
de canteiros fartos
e férteis

e o mundo acordou
muito mais cor

de rosa.

Malu Sant'Anna

Semeadura

(Foto Ben Goossens)


Comungam
a vala e o grão

vão faminto
de vida

procriação.

o broto rebenta
a aridez e desterra

inércia latente

que dele, à terra
outrora semente

é vértice
rompendo

entranhas
do chão

Malu Sant’Anna

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mea culpa

(Foto Google search)


Hoje não quero portas abertas
ou olhos que vertem nas frestas

abdico do perdão que por covardia
ou extrema vaidade pensei pedir
quando a dor de ser má
atou nós e me inundou de breu

dou ao tempo passagem célere
para que amadureçam verdades
subscritas em intensas emoções
sempre incontidas no calor da hora

tanto ainda que se desvendar
eu temo, pelo gume de minha língua

nem um passo, través ou avante
apenas nada, agora... vazio que aperta

e uma expectativa muda
para que o caos em si definhe
sendo apenas mais uma página virada
uma esquina a mais dobrada
na senda comum de nós dois.



Malu Sant'Anna

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Trampolim

(Foto A. Brito)

Em cima da casa
os braços abertos
são asas

O salto,
pra onde?

Não sei...

É como um tiro
no escuro,
a cara de frente
para o mundo

quando o que
eu mais queria

era me esconder!

Malu Sant’Anna

terça-feira, 7 de abril de 2009

Foto tradução (Para Tahys Meybom)

(Foto Google Search)

Eu te sabia assim,
te sentia além dos
limites das cidades
da região metropolitana
de Porto Alegre.

Com mesuras
dispensáveis
desde que aprendi
a decifrar
os meus eleitos

parei no teu olhar
cansado e despretensioso
e no rascunho traçado
logo abaixo: um quase sorriso.

Ali, naquele instante,
eu te conheci
novamente.

Malu Sant’Anna


segunda-feira, 23 de março de 2009

Jardineiro

FOTO LIV EDGEWORTH
Ao poço fundo
que continha
e vertia
tanta mágoa
minha

bastou
poucas pás
da tua terra fértil

para florescer
no lugar
o jardim
dos meus sorrisos.

Malu Sant’Anna

quinta-feira, 19 de março de 2009

Esquecimento

FOTO FREDERICO ABRANCHES DE R. VIOTTI

Eu te procurei em muitos lugares.
Estive na velha ponte de ferro, que já não leva a nenhum lugarejo e sob a qual não corre mais o rio. Mudou o curso ou secou... não sei. Só sei que não te encontrei.
Fui até o jardim da velha casa de pedra. O forte cheiro de humo denunciava anos de abandono. Sentei na borda da fonte que no meio, tinha um querubim segurando um jarro, de onde não mais vertia nada. Olhei ao redor, procurando nas sombras tua silhueta... Não estavas lá!
Resolvi entrar na casa. Estava vazia. As madeiras que sustentavam o telhado apodreceram com o tempo e as paredes de pedra estavam esverdeadas com o limo. A única presença inegável nesses caminhos era a umidade. E mais uma vez não te encontrei...
Eu te perdi em algum lugar e já não me lembro onde...

Malu Sant’Anna